O trauma como herança: Filhos que presenciaram o assassinato dos pais.

 

 

"Quando meu pai vem me ver?"

 

A menina não quer relembrar o assalto na Via Dutra, próximo a Belford Roxo, em que o pai — que protegeu a mulher e a filha com o corpo — foi baleado. - Selma Schmidt / Agência O Globo

— Coloquei a mão na cabeça da tartaruga. Também peguei conchinha, e joguei areia na água — descreve X. o seu primeiro dia na praia.

Mas a menina espevitada e falante se transforma em segundos, diante da pergunta sobre o que aconteceu no ônibus, durante a volta à noite para casa. Silencia, abaixa o rosto e ameaça sair de perto. Não quer relembrar o assalto na Via Dutra, próximo a Belford Roxo, em que o pai — que protegeu a mulher e a filha com o corpo — foi baleado. O operador de depósito de um supermercado Ademir Felipe Nascimento de Souza, que aproveitou o dia de folga para passear com a família, perdeu a vida aos 23 anos.

— Minha filha chora do nada; fica triste. E pergunta pelo pai para o “papai do céu” — recorda a mãe, a estudante Amanda Costa, que ficou viúva aos 20 anos.

Para a menina, o pai foi morar no céu. Outro dia, ela olhou para o alto, e se mostrou preocupada.

— Queria saber se o pai podia cair lá de cima — conta a mãe.

E vieram mais questionamentos:

— Ela me interrogou: “Quando meu pai vem me ver?”. Aí, eu expliquei que o pai está trabalhando para o “papai do céu”, e que, um dia, a gente é que vai ver ele.

Tamanha violência, que despedaça famílias, deixa ainda o trauma como herança para filhos sobreviventes. X. se tornou mais agressiva, lamenta Amanda. E qualquer ruído a remete à noite de horror.

— Na Kombi que pegamos para ir à missa de um mês da morte do Felipe havia algumas ferramentas que balançavam e faziam barulho. Minha filha perguntou: “É tiro?” — lembra a jovem viúva, enquanto começa a arrumar o cantinho, onde viveu com o marido e que “um dia” pretende voltar a morar:

— Nossa filha dormia no meio da gente nessa cama. Por enquanto, estamos na casa da minha mãe. A menina sente muita falta do pai. Eram muito apegados. Como o Felipe pegava à tarde no trabalho, passava a manhã brincando com ela. Quando eu brigava, era para os braços dele que corria. O Felipe era mais paciente. Ainda hoje, quando reclamo de alguma coisa, ela chama pelo pai, pedindo ajuda.

Mesmo com o trauma, por falta de recursos para custear o tratamento, X. e a mãe não estão sendo acompanhadas por um psicólogo. A empresa do ônibus assaltado, que pagou o enterro e havia prometido ajuda, voltou atrás, alegando não ter sido um acidente.

 

 " Meu pai não pode ressuscitar?"

Em março, X. estava no carro com o empresário do ramo de transportes Cláudio Henrique Costa Pinto, de 43 anos, quando o veículo foi interceptado por assaltantes, na Rua Honório, no Cachambi - Terceiro / Reprodução / Internet

Diferentemente de X., A., que completou 6 anos menos de um mês depois de o pai ser assassinado, está sendo assistido por psicólogo. Mesmo assim, dá sinais do quão profundo é o trauma.

— Há duas semanas, ele falou que não queria ser pai. Perguntamos qual era a razão. Disse que ficou muito pouco tempo com o pai dele. Só cinco anos — lamenta a tia Jaqueline Aparecida Costa Pinto, irmã do pai e madrinha do menino.

Em março, o garoto estava no carro com o empresário do ramo de transportes Cláudio Henrique Costa Pinto, de 43 anos, quando o veículo foi interceptado por assaltantes, na Rua Honório, no Cachambi. Uma viatura policial entrou na rua, e houve troca de tiros. Um vídeo, gravado por um morador do local, registra o momento em que a criança grita que o pai morreu. Os bandidos fugiram no automóvel da vítima. E a mochila com o material escolar de A. foi junto.

— No fim semana depois que meu irmão morreu, fui ao shopping com meu sobrinho e comprei o que roubaram dele, para que não se sentisse excluído e voltasse a ter as suas coisinhas — diz Jaqueline.

O menino e a mãe optaram por manter a casa fechada. Estão vivendo com os pais dela. A família não fala sobre o crime perto da criança. A. é que às vezes surpreende.

— Ele é esperto. Questiona coisas que não se tem resposta. “Se Jesus Cristo ressuscitou por que meu pai não pode ressuscitar?”, perguntou — reproduz a tia, acrescentando que o afilhado já escolheu o presente de Natal:

— Disse que vai pedir ao Papai Noel para trazer o pai dele de volta. Fala que está com muita saudade e que o pai o salvou, porque o puxou quando começaram a atirar. O pai é o herói dele.

Uma semana após o crime, A. retornou à escola. Ele passou também a fazer aulas de futebol. Na semana do Dia dos Pais, porém, a família decidiu não mandá-lo para o colégio, porque os alunos iriam fazer trabalhos e ensaiar para a festa em homenagem a alguém que ele acabara de perder.

— Estamos tentando manter a vida dele o mais normal possível. Espero que o trauma não seja para a vida toda. Mas imagino que será — desabafa Jaqueline.

 

"Faço companhia a ele, e ele a mim"



Policiais da DH no Rio Comprido, local onde o chefe de cozinha Francisco Vilamar Peres foi baleado em uma tentativa de assalto no dia 26 de setembro - Fabiano Rocha / Agência O Globo

 

Um pouco mais velho, J., de 10 anos, presenciou o pai, o chefe de cozinha Francisco Vilamar Peres, ser baleado em uma tentativa de assalto no Rio Comprido, no dia 26 de setembro. Francisco, de 49 anos, estava com a mulher e o menino em um bar, quando um homem abordou a criança, exigindo o celular que segurava. Para proteger o filho, Francisco foi em direção ao criminoso, que atirou no seu rosto. O chefe de cozinha morreu no hospital.

 J.continua morando com a mãe — Conceição Vera dos Santos, grávida de três meses — na mesma casa onde viviam antes do crime. Durante o dia, o menino brinca com amigos e parentes, e tenta se distrair.

— Quando não está brincando, fica pensativo, chora e fala do pai: “Se meu pai estivesse aqui, o que iria dizer, se meu pai estivesse aqui, isso seria desse jeito”. Se meu pai estivesse aqui é o que ele mais fala — reproduz Conceição.

É à noite que a ausência é mais sentida.

— O pai é que botava ele para dormir. Só quando o menino dormia, é que o Francisco ia para nossa cama. Às vezes, a gente acordava e ele estava entre nós — recorda a viúva. — Agora, meu filho dorme na minha cama. Eu faço companhia a ele, e ele a mim.

Na segunda-feira seguinte à missa de sétimo dia do pai, J. decidiu voltar para a escola.

— Ele me falou que estaria “um pouco pronto”, embora não 100%. No colégio, a psicóloga vai ajudar quando estiver chorando. Afinal, a vida precisa continuar.

 

"Disputa pela guarda"

 A corretora de imóveis Karina Garofalo, de 53 anos, foi assassinada na frente do condomínio onde morava na Barra da Tijuca - Marcos Nunes / Agência O Globo

Já S. virou órfão de mãe (morta) e de pai (vivo). Em agosto, o delegado André Barbosa, da Delegacia de Homicídios da capital, ouviu do menino uma frase que considerou assustadora: “Papai mandou matar mamãe”. Então com 11 anos, S. detalhou o assassinato da mãe presenciado por ele, a corretora de imóveis Karina Garofalo, em frente ao condomínio onde os dois moravam, na Barra da Tijuca. O principal suspeito do crime é o empresário Pedro Paulo Barros Pereira Júnior, ex-marido de Karina, que teve a prisão preventiva decretada e está foragido. Ela e Pedro Paulo tiveram uma separação litigiosa e disputavam os bens do casal. S. chegou a descrever a arma do crime, que tinha, inclusive, um silenciador acoplado na pistola.

Depois do assassinado, S. não voltou mais à Barra. Retornou para Volta Redonda. Inicialmente, ficou no apartamento da tia, Kátia Garofalo. Ele passou a frequentar a antiga escola e tem acompanhamento psicológico para tentar vencer o trauma. Recentemente, foi morar na casa dos avós paternos por opção dele. Queria ficar perto de sua irmã mais velha, de 19 anos.

— O vínculo maior dele é com a irmã. Quer a proximidade, e eu respeito muito tudo o que ele me pede. Compreendo plenamente — diz a tia.

Segundo o seu perfil no Facebook, S. é vascaíno, gosta de esportes e é fã de Usain Bolt, ex-velocista jamaicano, multicampeão olímpico e mundial. Entretanto, ele não publica na rede social desde 12 de abril de 2017. No início do mês, completou 12 anos. Na véspera, esteve com a tia. Kátia conta que o crime vem pouco à tona nas conversas entre eles e, dessa vez, não foi diferente:

— Ele é muito lúcido. Falou tudo de forma clara, minuciosamente. Fica redundante insistir nesse assunto com uma criança. Só perguntei se ele está bem, se está sendo bem cuidado. Ele é uma criança especial, com uma cabeça linda. Passou a tarde conosco (na véspera do aniversário), mas não mencionei, não conversei sobre isso (o crime), porque acho que já teve muita pressão. Tentamos ter um dia leve com ele.

Após o crime, a guarda provisória de S. foi dada à tia do menino. No entanto, o garoto está no centro de outra batalha. Os avós paternos estão disputando a sua guarda.

— Os avós paternos, que moram no mesmo bairro que eu (em Laranjal), fizeram várias abordagens, talvez para suprir tudo o que o filho fez — diz Kátia.

Procurados através de seu advogado, os avós paternos optaram por não se pronunciar.

 

"Forte ímpeto de revolta"

Há sete anos, o funcionário público André Luiz de Andrade Maciel foi assassinado na presença da filha — à época com 4 anos — e por dois sobrinhos — de 12 e 7. O crime ainda está vivo na memória dos três - Guilherme Pinto / Agência O Globo

Mesmo passados sete anos, o assassinato do funcionário público André Luiz de Andrade Maciel, presenciado pela filha — à época com 4 anos — e por dois sobrinhos — de 12 e 7 — , ainda está vivo na memória dos três. André tinha ido com as crianças e a mulher ao Norte Shopping comprar um lanche. Para não ter que procurar vaga no estacionamento, deixou a esposa no local e deu uma volta no quarteirão com as crianças. Ao ser abordado por criminosos, não parou o carro, e foi baleado.

— A vida seguiu. Mas o sentimento de perda acompanha os meninos. Quando há uma confraternização, um aniversário, o Natal, o Dia dos Pais, sentem que falta alguma coisa — afirma o professor Ênio Marinho, cunhado de André Luiz e pai dos mais velhos que estavam no carro. — Destruíram nossa família.

As filhas de André Luiz e de Ênio choraram muito na ocasião, fizeram análise e, atualmente, se mostram mais calmas. O mais velho do trio de crianças, que, em 2011, se manteve calado, desenvolveu um forte ímpeto de revolta.

— Hoje, aos 19 anos e militar da Marinha, acha que bandido é um ser que a gente tem que exterminar. Está saturado de tanta maldade e covardia — diz Ênio.

 

"Cérebros reagem diferente"

Para a psicóloga Paula Emerick, fundadora do Solace Institute, todos que sofrem um trauma, como o de presenciar o assassinato de um parente próximo, precisam de terapia. Sem essa assistência psicológica, podem desenvolver um transtorno (o chamado transtorno pós trauma), deixando de fazer coisas que eram parte de sua rotina, como, por exemplo, andar de ônibus após um assalto.

— O trauma não passa desapercebido pelas emoções. É algo surpreendente, avassalador, afrontador para uma pessoa, sendo ela criança ou adulto — explica Paula. — Experiência não se esquece. Mas, tratada, uma pessoa consegue viver bem.

Há também casos em que a pessoa, em vez de desenvolver um transtorno, sofre um apagão.

— O trauma pode ser tão forte que, para não conviver com ele, como defesa o cérebro provoca um apagão. Você pergunta o que aconteceu naquele dia, e a pessoa diz que não sabe. Às vezes, tempos depois, fazendo terapia, o terapeuta evoca emoções, e a pessoa se lembra — acrescenta Paula.

A psicóloga lembra, porém, que cada cérebro reage de forma diferente:

— A resposta é muito individualizada. Têm cérebros que precisam de assistência de dois, três meses. Outros são assistidos por um ano e, ainda assim, não reagem.

 

 

fonte:https://guiafranquiasdesucesso.com/franquias-de-servicos-rapidos/

 

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