Morte abrupta e violenta provocada por tragédias agrava o luto

 RIO — No dia em que o rompimento da barragem de Brumadinho completou duas semanas, com mais de 150 mortos identificados até agora, dez adolescentes morreram em incêndio no Centro do Treinamento do Flamengo, no Rio. Dois dias antes, as chuvas na cidade tiraram as vidas de seis pessoas.

O luto decorrente dessas mortes é intensificado pela forma abrupta e violenta com que ocorreram. E, por isso mesmo, exige atenção. O processo, alertam especialistas, pode afetar as dimensões física, psíquica, emocional, comportamental, social e espiritual.

— O luto é consequência de uma perda significativa, que pode ser concreta, como a morte de um familiar, ou simbólica, como alguém em Brumadinho que viu sendo devastada a área onde morava ou a escola onde estudava — explica o psicólogo clínico Carlos Aragão Neto, especialista em tanatologia com formação em estudo do luto.

O processo de luto apresenta diferenças quando a morte é algo que já se espera, como em casos de doença crônica grave, ou decorre de uma tragédia, como as que se abateram recentemente sobre o país, explica a psicóloga especialista em luto Nazaré Jacobucci.

— Quando temos a possibilidade de nos despedirmos de alguém que amamos, nos sentimos mais confortados. Mas, quando a morte surge de uma forma absolutamente abrupta, o estado de choque inicial é desconcertante. Os questionamentos também podem permanecer por um longo período, sendo mais um fator de angústia e podendo levar a distúrbios psicossomáticos — ressalta Jacobucci, administradora do blog "Perdas e Luto".

A busca rápida por apoio profissional em situações com essas é importante para evitar o desenvolvimento do transtorno do estresse pós-traumático, um distúrbio de ansiedade que pode dificultar ou até impedir o retorno às atividades habituais.

— O ideal é, de imediato, acionar profissionais da área de saúde mental em busca de suporte, para que seja vivido só o luto, que já é uma dor tremenda, e não se associe a fatalidade a uma particularidade da pessoa — pontua a psicóloga Paula Emerick, fundadora da Solace Institute.

Nem toda perda, entretanto, significa a necessidade de procurar ajuda especializada. Há sinais de alerta que pedem mais atenção, como a dificuldade de manter atividades cotidianas ou mudanças bruscas no padrão de comportamento. Se essas questões persistirem, pode ser preciso buscar avaliação psiquiátrica ou psicológica.

Durante o processo de luto, Aragão Neto explica que é possível sofrer, a curto e longo prazo, com questões como confusão mental, dificuldade em tomar decisões e problemas de concentração. Da ordem comportamental, é comum enfrentar distúrbios de apetite e do sono — dormir demais ou ter insônia —, e redução da performance, escolar ou profissional.

Rede de apoio

Para melhor elaborar o processo de luto, aconselham psicólogos, é preciso se permitir sentir a dor, e não ignorá-la. É preciso falar sobre a perda, a pessoa que se foi, e, principalmente, nomear os sentimentos, como raiva ou tristeza. Respeitar seu próprio tempo, proteger-se quando sentir necessidade.

Emerick reforça ainda a importância de uma rede de apoio: pessoas que acolham e escutem, quantas vezes for necessário. Na dúvida sobre como abordar alguém que passa por um momento de luto, principalmente próximo ao momento da perda, ela aconselha que não se fale nada.

— Um abraço já é suficiente, acolher, deixar a pessoa chorar. Dispor-se a ouvir — diz a psicóloga. — No primeiro momento, juntar-se a uma rede de pessoas que tenham passado ou estejam passando pelo mesmo tipo de situação, como outras famílias, também pode ajudar a assimilar o que aconteceu.

Carlos Aragão Neto ressalta que o luto é um processo individual, em que cada um processa a dor de maneira diferente. Compreender isso, de acordo com o psicólogo, é importante para não comparar a dor de uma pessoa com a de outra.

O tempo

A sabedoria popular diz que o tempo é o melhor remédio. Mas, no caso do luto, Aragão Neto diz que não é bem assim. No luto, ele pondera, o tempo ajuda a quem se ajuda.

— O tempo vai contar a favor nos casos em que se investe no processo, em que a pessoa consegue expressar seus sentimentos, tem rede de suporte emocional e social. Com o tempo, a intensidade dos sentimentos vai diminuir. Mas quem negligencia a sua dor e tenta fazer de conta, em um processo fantasioso, que a dor vai simplesmente se dissipar, pode ver essa conta chegar lá na frente, independentemente do tempo que passou — afirma. — O equilíbrio entre trabalhar a dor e também cuidar da vida que ficou é o ideal.

 

 

 

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