Nova geração Digital

Quadrinhos, super-heróis, videogame, séries. Tudo isso e mais um pouco junto, conectado com conhecimento aprofundado.

Muitas dessas características são cada vez mais diluídas entre o público em geral. Mas, se você acrescentar um toque cool ao perfil, ganha um geek de presente. De brinde, um consumidor fiel de produtos específicos e com disponibilidade para investir. Mas quem são eles? Onde vivem? Como se alimentam?

Uma pesquisa da MindMiners em parceria com o grupo Omelete conversou com mil brasileiros que se consideram geeks e constatou que eles estão concentrados no Sudeste, com 48% de sua parcela, a maioria é constituída por homens (61%), principalmente entre 16 e 24 anos (58%). São Caetano do Sul (SP), Niterói (RJ) e Florianópolis

(SC) são os destaques do ranking de vendas de produtos relacionados ao segmento, de acordo com uma lista divulgada pela Amazon Brasil em maio deste ano.

Entender a linguagem desse público é essencial para começar um negócio no setor, mas sem exageros. “O melhor é demonstrar integridade, conhecimento e preocupação com seus princípios e estilo de vida. Outro erro comum são as famosas ‘gafes intelectuais’. Por exemplo, geeks amantes da tecnologia iPhone ou Apple jamais vão aceitar comparações e discussões em relação a outras tecnologias, como Android e Samsung. Entrar nesses dilemas é, sem dúvida, um erro grosseiro e que deve ser evitado”, ressalta o consultor de Negócios e diretor-executivo da Solace Institute, Fábio Stumpf.

O desafio maior é justamente entender o mundo de maneira orgânica, vivenciando o universo de forma autêntica. Há ainda muitos eventos relacionados ao assunto e é importante estar de olho às datas de lançamentos mundiais, com fãs dispostos a usar seu dinheiro nesses produtos e feiras.

Segundo Stumpf, é um mercado aquecido e que gera volume no País, por isso, estar preparado para ser competitivo é fundamental.

Atenção aos concorrentes é outro ponto, incluindo custo do dólar e das taxas, já que muitos produtos são importados.

MARCELO FORLANI,SÓCIO-FUNDADOR DO OMELETE.

 

OPORTUNIDADES CRESCENDO EM ÁRVORES

O universo digital é, sem dúvidas, um setor a ser investido independentemente do segmento. Não seria diferente como um consumidor tão conectado como o geek, como explica o diretor de Operações da No Beta, Luciano Rocha. Nesse contexto, os produtos que podem gerar engajamento do público são os gadgets.

“Com certeza, o que mais atrai este tipo de público são aparelhos eletrônicos, como notebooks, videogames portáteis e smartphones. Mas são muito antenados também em cinema, quadrinhos e jogos de RPG”, conta, acrescentando ainda que a área de desenvolvimento pode ser um bom início, para criar aplicativos, jogos e outros.

A Inteligência Artificial já é realidade e cada vez mais se adapta aos diferentes segmentos. Assistentes pessoais e aplicativos inteligentes são tendências que devem ser consideradas. Mesmo assim, não se esqueça de desenhar seu novo negócio projetando o suporte de um possível crescimento repentino. Tenha a estrutura necessária para atender à sua demandsempre. E lembre-se: aparecer no mercado digital pode ser difícil por conta da grande concorrência, por isso, cabe a você um investimento em marketing e em uma ideia inovadora.

A tecnologia não é mais um setor separado, faz parte do todo. Casas inteligentes, carros autônomos e restaurantes com robôs estão muito perto da realidade.

“Não tenha medo de falhar. Uma ideia genial só é boa se sair do papel. E o sucesso nunca acontecerá se você não botar a mão na massa. A capacidade de resiliência e de acompanhar as mudanças constantes do mercado também podem dar uma mãozinha para o sucesso”, finaliza Luciano.

O mais importante é lembrar que esse mercado já foi de nicho, mas, hoje, ele ganhou o mainstream, com nomes como “Homem de Ferro”, “Batman” e “Vingadores”. Além disso, o crescimento da Netflix também foi importante para esse salto. Apesar de o País estar em um momento econômico delicado, o público apaixonado sempre vai fazer o que for possível para ter acesso a um filme específico, uma camiseta ou boneco do seu personagem favorito.

 

OS GRANDES FAZENDEIROS

 Entre as marcas que são, hoje, as gigantes do segmento estão a Disney, com Star Wars, Marvel e Pixar, e a Warner, com a DC Comics (Batman, Superman e Mulher-Maravilha). Do lado tecnológico, Apple; Google, com YouTube; Facebook, com WhatsApp e Instagram; Amazon e Netflix são os destaques. Mas claro que o sucesso de marca entre esse público vai depender também muito de cada segmento e tipo de geek. “Existem muitas marcas crescendo e ganhando força junto a este público. Nosso estudo mapeou que os eventos nacionais sobre cultura geek mais conhecidos são a CCXP - Comic Con Experience (empresa do Omelete Group), a Brasil Game Show e Anime Friends. Quando perguntamos sobre os blogs e portais de tecnologia mais acessados, o Tecmundo e o TechTudo apresentaram respostas com percentuais maiores que 80%. E se pensarmosem portais para consumo de conteúdo de cultura pop, o Adoro Cinema e Omelete ficaram nas primeiras posições do ranking”, conta o marketing product

analyst da MindMiners, Lucas Mathias.

 LUCAS MATHIAS, MARKETING PRODUCT ANALYST DA MINDMINERS

 

DE OLHO NA JOGADA

Falando em gamers, a Eletronic Arts é, certamente, um dos líderes do setor. No ano passado e consecutivamente o EASports Fifa 18 foi o jogo mais vendido no Brasil – apesar de possuir apenas um público que joga esse tipo de game, ele também tem uma parcela grande de público geek. Need For Speed é outro exemplo, ficando em sétimo lugar entre os mais vendidos de 2017. “Eu estava em um churrasco com amigos e familiares e começamos a falar sobre jogos on-line, como MMORPG e MOBA. Uma das pessoas contou que o CEO da startup em que ele trabalhava jogava LOL (League of Legends) e comentamos que outros C-levels também jogam games on-line. Isso mostra que os geeks gamers vão muito além da ideia generalizada de serem somente adolescentes”, completa Mathias. Não à toa, a EA é líder global, com mais de 300 milhões de jogadores registrados em todo o mundo. No ano fiscal de 2018, chegou a uma receita líquida de US$ 5,2 bilhões. “O geek é, acima de tudo, muito apaixonado e, logo, conhecedor e até mesmo crítico.

Não adianta chegar ‘pagando de geek’. É preciso entender do que está falando, senão sua empresa vai cair em descrédito com este público”, acrescenta o sócio-fundador do Omelete, Marcelo Forlani. Esqueça os estereótipos. Os geeks não são todos iguais e todo mundo pode ter um pedaço desse perfil e ser um consumidor em potencial. O editor do site de cultura pop Judão, Thiago Cardim, também um dos criadores dos Combo Rangers e do site A-Arca, acredita que a área saturada para esse público, hoje, é do vestuário. Isso porque foi ali que iniciou o investimento, e lojas maiores acabaram entrando de maneira agressiva na competição. Por outro lado, é um público que busca mais experiências do que nunca, o que explica o sucesso de eventos como a CCXP e investimentos como a Disney planeja fazer em seu resort focado em Star Wars. Mesmo assim, tudo que puder ser considerado edição especial pode ser uma boa oportunidade, como itens raros de colecionadores, produções limitadas, páginas inéditas e coisas parecidas.

“Sempre vai existir espaço para este público e para estes produtos, mesmo em um mundo cada vez menos físico e mais digital. É o cara que consome streaming, assina o Spotify, mas não deixa de comprar aquele box numerado da sua banda favorita”, completa Cardim.

Por isso, se você achou um nicho de investimento, tenha fãs como consultores.

Ter ao seu lado quem de fato entende do assunto é essencial, incluindo conhecimentos sobre personagens, terminologia, cronologia e piadas internas de cada nicho, com o cuidado para o produto não virar meme negativo.

Para o fundador da escola Supergeeks, Marco Giroto, esse público quer marcas das quais possa se orgulhar – o que condiz com Cardim no quesito “busca por experiências”. As características que esses produtos devem trazer são: ser despojados, com design diferenciado e preocupação com o cliente, além, é claro, de serem inovadores. “Principalmente as novidades que possuem grande potencial de serem disruptivas. Geralmente são early adopters, o que significa que, mesmo que uma tecnologia ainda não esteja consolidada e seja novidade, eles vão adotar, pois querem ter em primeira mão. Além disso, eles gostam de estar sempre atualizados. Trocam de smartphone constantemente, console de videogame sempre que sai a última versão e sempre possuem gadgets diferenciados que a maioria das pessoas ainda não tem”, completa.

 

LUCIANO ROCHA, DIRETOR DE OPERAÇÕES DA NOBETA.

 

PARA ELES, COM CARINHO

Além do mercado de games e outras tecnologias, os quadrinhos também são um filão importante do segmento. “Quadrinhos são uma forma de entretenimento fantástica e envolvente. E, com eles, muitas facetas podem ser exploradas.

Então, por que não usar uma ferramenta tão grande de entretenimento para outras coisas também?

A inovação é amiga, e ter pessoas em todo o mundo tornando-se fãs dessas histórias, cada dia mais, é uma grande riqueza que pode ser aproveitada para outras finalidades, como o estudo de idiomas, aprendizado de outras culturas ou de história, por exemplo”, conta a fundadora e CEO do LingoZING!, ferramenta que usa os quadrinhos para ensinar línguas, Kyra Pahlen. Stumpf concorda com Kyra. Ele diz que os produtos licenciados, como livros, camisetas, papelaria, brinquedos e jogos de tabuleiro podem trazer boas oportunidades. Para isso, entender as demandas do segmento e a maneira de pensar ou agir do público é essencial.

Mas tudo sempre com planejamento, preparo e viabilidade financeira.

 

O QUE MUDOU?

O termo ‘geek’ já incomoda, porque virou o guarda-chuva de uma série de panelinhas/nichos que os fanáticos por este tipo de cultura pop mais específico (quadrinhos, cinema blockbuster de fantasia e ficção científica, séries de TV) justamente não queriam ser. “Os geeks/nerds – como queira chamar – de outrora queriam que seus hobbies fossem mainstream. E, agora que são, defendem- se atrás de escudos como ‘o geek de verdade’ para dizer que o mais jovem não pode opinar sobre os filmes da Marvel porque não lê os gibis há 40 anos ou nunca viu os Star Wars originais nos cinemas”, detalha Cardim.

De fato, o estudo mostra que o conceito mudou. Ele pede para tirar a palavra nerd da lista e perceber que a ideia do cara tímido, solteiro e viciado em games passou para outro patamar. O geek – ou a geek – é uma pessoa conectada que vai dos livros ao YouTube e tem uma vida social ativa. Apenas 35% acreditam que sábado à noite é um bom momento para estudar e aprender coisas novas, o restante é dividido entre discordar e ser indiferente sobre isso.

 

 

 THIAGO CARDIM, EDITOR DO SITE DE CULTURA POP JUDÃO E UM DOS CRIADORES DOS COMBO RANGERS E DO SITE A-ARCA

 

O músico e designer Victor Cavalcanti é exemplo de um novo perfil, ao mesmo tempo que tem conseguido transformar isso em um negócio. “Sempre fui fã dos heróis de HQ.

No começo, eu era muito team DC, mas o universo compartilhado me fez mudar de lado. Não me considero o maior entendedor, mas consumo.

Além da minha paixãozinha pelos Power Rangers… Tenho pouco tempo livre, mas tenho aproveitado esses momentos criando conteúdo para um vlog sobre arte e diversidade chamado ‘Fita C*cete’, além de compor um novo projeto musical.

Acaba sendo meu momento de trabalho, diversão e reflexão ao mesmo tempo”, conta.

E não para por aí. Pedir comida, fazer compras, solicitar um transporte, jogar, estudar e relacionarse. Para tudo isso existem incansáveis aplicativos, que serão sempre um bom lugar de investimento.

O Rappi, por exemplo, que já é queridinho das blogueiras, permite qualquer tipo de entrega

– incluindo dinheiro, quando você está sem tempo para sacar direto do caixa eletrônico. “Não estamos falando de uma tribo que costuma agir e frequentar os mesmos lugares, mas sim de aficionados por tecnologia, usuários avançados e criadores que, no caso, podem ter costumes totalmente diferentes, tendo a tecnologia como centro de suas vidas”, completa Marco.

 

 

MARCO GIROTO, FUNDADOR DA ESCOLA SUPERGEEKS

 

FIÉIS ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE?

 Fidelidade é algo com que o novo empreendedor pode contar, até certo ponto. O público geek investe mais dinheiro em produtos básicos de cada segmento. De acordo com Cardim, um consumidor que gosta de um filme específico vai pagar o ingresso do cinema para a estreia e também a edição em DVD/Blu-ray para completar a coleção, sem contar outros produtos. Lucas Mathias concorda, contudo, acrescenta que é um público em busca de inovação constante. “Os gamers geeks, pessoas que possuem características como jogar videogame diariamente e acessar portais de streaming para assistir a gameplays, podem ser considerados fiéis e muitas vezes defensores de uma marca. Isso, por exemplo, é o que gera discussões entre os players, como qual o melhor console: Nintendo, Sony ou Microsoft? Mas perguntamos em nosso estudo sobre o Dia do Orgulho Geek: ‘Você é time Marvel ou DC?’, e 47% dos geeks declararam gostar de ambos, mostrando que não existe ‘tanto’ essa fidelidade a somente uma marca”, completa. Marcelo Forlani do Omelete lembra, no entanto, que o fã quer saber que é parte da marca que ele gosta, por isso investe em produtos e serviços relacionados que ajudam a fortalecer o nome. “Cada vez mais, a transparência é um item fundamental.

Mostrar de onde o dinheiro está vindo e onde está sendo aplicado é algo muito atual”, finaliza. 

 

Fonte:https:Revista Gestão e Negócios - Edição 114

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